ontem machuquei meu braço

machucado

Quando eu estava descendo do ônibus, no terminal, senti uma mão cutucando meu ombro direito. Era uma senhora. Segurando uma bolsa, pediu, gentilmente, que eu descesse a caixa dela para fora, já que não conseguiria carregar os dois objetos. “A senhora vai ficar em qual ponto aqui?”, perguntei. Ela respondeu que iria para a entrada do terminal, cerca de 5 metros de onde estávamos. Me prontifiquei a levar a caixa até lá. Consequência: um “Jesus te abençoe, meu filho!”… E um machucado no braço.

Aí me fiz três perguntas: estamos dispostos a nos machucar um pouco pelo bem de outra pessoa? Melhor: até que ponto estamos dispostos à enfrentar alguma dor pelo bem alheio? Melhor ainda: até que ponto vale a pena nos machucarmos para que o bem de outra pessoa seja possível? É provável que as duas partes, mesmo uma cedendo em nome da outra, saiam ilesas? Não descobri a resposta.

Mas percebi que cabe a nós decidir a maneira que vamos encarar esse machucado: nos importar com a dor dele ou com a ação que o causou. Todos os dias precisamos tomar esta decisão; em várias situações. Como vamos encarar nossas dores? Olhando para elas e sentindo ou tentando encontrar a solução para a causa dessa dor? Priorizando a marca vermelha no braço ou o sentimento de coração aquecido ao ajudar alguém desconhecido e receber um abraço em forma de agradecimento?

É ÓBVIO que tudo isso parece muito fácil quando escrito. Somos humanos. Sentimos. E não dá pra simplesmente ignorar nossas dores e agir como seres evoluídos o tempo todo. Sentir a dor também é importante. Enlouqueceríamos se, a todo instante, negássemos sentir algo que está ali, aqui, dentro de nós. Fingir que algo não existe para evitar sofrimento é uma solução a curto prazo. Uma hora você vai ter que encarar aquilo.

Sem dizer que um machucado não significa necessariamente algo ruim. Machucados são marcas. E marcas significam que você viveu, fez alguma coisa, agiu. Se machucar, sentir dor, significa que você está vivo. É tão difícil colocar essa teoria em prática. Eu acho enlouquecedor. É gostoso sentir raiva. É gostoso ficar bravo, sentir a tristeza, dizer que está sofrendo. É confortante dar desculpas. Confessar e sentir suas dores é aliviante. Assim como é fácil escrever esse texto, dando, talvez, a impressão que eu consiga praticar tudo isso que escrevi.

MAS NÃO! Não consigo. Não mesmo. Todo dia travo uma batalha com meu cérebro, com meus sentimentos e minhas razões. Engolir seco e ser racional ou sentir o doce e gostoso sabor da emoção? Aí temos que escolher e praticar. “Crescimento pessoal é um processo infinitamente repetitivo”, já dizia Mark Manson. Só sei que, para o bem, vale, sim, machucar o braço. Só passamos a olhar onde pisamos depois de ter caído e ralado o joelho.

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